Um registro da 1ª Conferência Intermunicipal da Região Metropolitana de Campinas
Um registro da 1ª Conferência Intermunicipal da Região Metropolitana de Campinas

Érica Araium
Idealizadora de Diálogos Comestíveis, estrategista de branding, marketing e comunicação. Jornalista. Palestrante. Ávida por #MotivosParaDialogar.

Érica Araium
Idealizadora de Diálogos Comestíveis, estrategista de branding, marketing e comunicação. Jornalista. Palestrante. Ávida por #MotivosParaDialogar.
Ser jornalista e cidadã é testemunhar e agir em decisões que afetam milhares de pessoas avizinhadas num mesmo território: mais precisamente, uma população de 3.491.150, de acordo com dados divulgados em 2024 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pois fui cheia de #MotivosParaDialogar à 1ª Conferência Intermunicipal da Região Metropolitana de Campinas (RMC), sediada na Escola Técnica Estadual Conselheiro Antônio Prado (21/01/2025). Voltei para casa pensando no que pode sair de um punhado de ideias anotadas em pequenos papeis coloridos e lidas em voz alta por alguns minutos. Leis? Planos nacionais para uma governança climática ativa?
Lá estava eu no mesmo lugar em que estudara de 1994 a 1996, entre os cerca de 260 participantes, representantes de 18 municípios da RMC dos mais diversos segmentos: partidos políticos, secretarias e autarquias municipais, educadores ambientais, agentes culturais, acadêmicos, pesquisadores, cidadãos. A maioria aparentava ter acima de 40 anos, como eu. Figuras como o professor doutor Pedro Rocha Lemos, sociólogo e membro da Diretoria da Jaguatibaia, Associação de Proteção Ambiental da APA Campinas, sempre aparecem e lideram em ocasiões assim. Foi ele (na foto abaixo, ao centro) o nosso moderador principal, unido a outros membros da Secretaria do Clima, Meio Ambiente e Sustentabilidade (Seclimas).
Fazia um calor de 35ºC e nossos cérebros ferviam, ainda ressacados pelos anúncios do Meta e pela posse de Trump (nos cochichos, só se falava nisso). Depois da mesa de abertura, em que o prefeito de Campinas Dário Saadi salientou que a mitigação das mudanças climáticas pesa demasiado no bolso dos municípios, passamos às ponderações coletivas.
Sob ventiladores poucos e ânimos quentes, elegemos as cerca de 50 propostas apresentadas para cinco eixos temáticos: mitigação; adaptação e preparação para desastres; transformação ecológica; justiça climática e governança; e educação ambiental.
Escolhi “educação ambiental e governança” para debater com meus pares, cerca de 150 pessoas. Foi o eixo mais concorrido. Falamos, entre outras coisas, da importância da criação de um sistema eficiente de informações sobre as mudanças climáticas, das hortas comunitárias, do fomento à fiscalização e credibilização de órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Sonhamos com um centro de educação ambiental para cada município, da necessária qualificação dos agentes ambientais, da reciclagem, de propostas mais ágeis voltadas aos decisores do agora, os adultos que teimam, como disse uma participante, a formular propostas para “as escolas e as próximas gerações”, o que, realmente, não é muito justo. Não dá mais tempo de projetar nada em meio à urgência climática.
Achei "de bom tom" dizer das aproximações entre alimento e informação e ressaltar a importância da divulgação científica e do fomento às políticas públicas que melhorem as escolhas alimentares. A preocupação com um comer mais sustentável e próximo à lógica da terra (e não dos humanos) não ressoou muito na plenária, a despeito das consequências óbvias de uma produção alimentar pautada pelo agronegócio. Há certo encantamento pelo assunto, mas falta conexão com a realidade. Puxei, de cara, uma enquete para saber quem havia cozinhado algo para se alimentar naquele dia e, em minha fala, ressaltei a noção de alimento como sinônimo à informação frente à emergência climática. Apenas uns poucos 20 participantes levantaram o braço, mais animados.
Um parênteses: a preocupação com os sistemas alimentares também ficou de fora do texto final da COP 29, que antecede e pauta a COP 30, de Belém. No relatório, fica claro, apenas, que as medidas de mitigação e adaptação a serem implementadas não devem colocar em risco a produção de alimentos. Mas não há menções, por exemplo, ao papel e ao destino dos produtores rurais e pequenos agricultores, responsáveis, sabidamente, pela salvaguarda de nossa alimentação sustentável.
No intervalo para o almoço – lanches de metro servidos num bufê coletivo, financiado pelo poder público, nas dependências da mesma ETECAP de outrora, que parece ter parado no tempo – pudermos discorrer sobre os rumos de nossas escolhas sentados numa espécie de refeitório improvisado. Faltou tempo para dissertar sobre as urgências e sobraram ponderações sobre a nossa responsabilidade naquele momento. A lógica de não ter de sair das dependências da escola para comer fez os participantes não debandarem na parte da tarde. Foi uma vantagem competitiva do processo, democrático.
Senti falta de falarmos mais amplamente sobre um sistema coletivo de acesso à informação – inclusive para debater como foi realizada essa 1ª Conferência Intermunicipal da RMC, promovida a toque de caixa nas primeiras semanas de uma nova gestão municipal. Senti falta da noção de sermos todos refugiados climáticos ocupantes de um mesmo “território”. Senti falta da mediação da tecnologia e de uma análise mais precisa de dados e propostas em tempo real. Foi estimulante estar lá e ver que rolou. Mas há muito a aprimorar. Será que ainda dá tempo?
Fomos convidados a eleger 10 propostas por eixo sem nenhum recurso tecnológico de curadoria. Com pouquíssimas intervenções de uma equipe organizadora enxuta. Levamos nossas ideias a pequenos papéis coloridos e os lemos em voz alta. Depois, numa dinâmica bastante simples, escolar, “juntamos” os textos das propostas semelhantes para formular versões mais sintéticas de duas ou três que se aproximavam. E as entregamos aos moderadores. Eles as transcreveram para um arquivo que, depois, foi lido em voz alta por um representante. Cada eixo com suas nove ou dez ideias e, dali, sairiam as 10 propostas iniciais de projetos intermunicipais.
Então, nos deram etiquetas redondas – exatas 10 por pessoa qualificada para votar – e nos pediram para colar nossos votos num painel de papel kraft que formava uma espécie de galeria de propostas. Votamos assim, sem a mediação da tecnologia, como se fazia “quando tudo era mato”. O que pode sair de um punhado de ideias anotadas em pequenos papeis coloridos e lidas em voz alta por alguns minutos? Ao fim da tarde, foram eleitos os delegados – representantes da etapa Estadual das proposições, que deve ocorrer em março/2025.
Em tempo1: participe da 5ª Conferência Municipal de Meio Ambiente, na Estação Cultura, em Campinas/SP, em 25/01/2025.
Em tempo2: em fevereiro de 2024, a Prefeitura Municipal de Campinas criou o Comitê Municipal de Enfrentamento aos Impactos da Mudança do Clima, composto por “grupo gestor (deliberativo), grupo técnico (consultivo) e câmaras temáticas (participativo), além do Grupo de Emergência Climática, ligado à Defesa Civil (e ativo)”. A mesma Prefeitura que vem retirando árvores frequentemente, sob justificativa de revisão alega que plantou 369 mil entre 2022 e 2024, o que representa a absorção de 51,7 mil toneladas de CO2. O transporte e a geração de energia são, hoje, as maiores fontes geradoras de gases de efeito estufa no município.