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Os vieses da Meta e as cenas dos próximos capítulos

Os vieses da Meta e as cenas dos próximos capítulos

| Érica | Pensamentos devorados

Érica Araium

Idealizadora de Diálogos Comestíveis, estrategista de branding, marketing e comunicação. Jornalista. Palestrante. Ávida por #MotivosParaDialogar.

Érica Araium

Idealizadora de Diálogos Comestíveis, estrategista de branding, marketing e comunicação. Jornalista. Palestrante. Ávida por #MotivosParaDialogar.


De quem é a responsabilidade pelos prompts e pelos textos (palavras e imagens) que circulam na internet? E nas plataformas de redes sociais? A meta do Meta é clara: voltar às origens em torno da “liberdade de expressão” a qualquer custo. Inclusive desconsiderar a legislação dos países que usam as plataformas Facebook e Instagram. O vale-tudo de Mark é um gesto político alinhado aos objetivos do governo Trump. Inclui execrar as agências de checagem de fatos como a brasileira Agência Lupa, fundada em 2015 e membro do International Fact-Checking (IFCN); ou a 2015, Aos Fatos, fundada no mesmo ano e defensora do jornalismo independente.

Na prática, o CEO da bightech pretende colocar nas mãos dos usuários (você, eu, a geral) a total responsabilidade pelos prompts e pelos textos (palavras e imagens) que circulam na internet. Se qualquer um pode produzir “conteúdo” sem moderação, a chance de as notícias falsas (se é fake, não deveria ser news) e desinformação ganharem amplo terreno nas mídias sociais é exponencial: os bots hão de se fartar.

Inteligências artificiais como o Chat GPT, Gemini, Sora e etc estão ao alcance de qualquer um que tenha um computador nas mãos e são elas, alimentadas pelos nossos prompts, as entidades mais tarimbadas para criar “fake news” e construir mitos, em segundos. Quando trabalham juntos e se comunicam entre si (em rede), os computadores “podem criar realidades intercomputadores análogas às realidades intersubjetivas produzidas por redes de humanos” (Harari em Nexus, p. 290).

À beira da singularidade (só para provocar ainda mais a discussão), nunca, nunquinha foi tão importante ser humano, com ética e moral avançadas. Porque, veja bem, "a linguagem é uma pele: pode-se esfregar uma linguagem contra a outra uma vez que tenha palavras, em vez de dedos, ou dedos nas pontas de minhas palavras”. Essa pontuação está em meu livro “Diálogos Comestíveis: porque todo comer é você quem desenha (Portuguese Edition) (p. 296). Editora Dialética. Edição do Kindle. E, em toda a minha pesquisa, me debruço sobre o fato de quão caro e complexo é produzir informação. 

Contudo, se levarmos em conta que os bancos de dados que alimentam as I.A.’s são alimentados (a maioria, ainda) por pessoas, há vieses em disputa numa guerra de narrativas capaz de por fim à “verdade” e à democracia. Se se ampliar a desregulação das redes sociais, não tardará nada para que os algoritimos façam da ficção/mentira/desinformação música para os ouvidos.

 

Quais as consequências?


Um passo antes, onde mora o perigo do anúncio do Meta? As I.A’s aprendem com seus erros e têm acesso a um universo de dados alimentados por seus “pais” humanos. Se esses estiverem decididos a serem totalitários, racistas, homofóbicos, xenófobos, assassinos e outros adjetivos tantos... A que informações teremos acesso?

Outro passo antes, devemos nos lembrar de que os brasileiros são os piores sujeitos para identificar fake news. Um estudo realizado pela OCDE, Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, com mais de 40 mil pessoas, divulgado em julho/2024, apontou que o Brasil foi o país com o pior desempenho em uma pesquisa que mediu a capacidade das pessoas em identificar notícias falsas em plataformas como as redes sociais, usadas por mais de 85% dos entrevistados em 21 países para buscar informações. Num mundo em que a disputa é por atenção e quando tudo é dopaminérgico, sua aposta é de que haverá um bug total na Matrix a prazo ou à vista?

Ao mesmo tempo, não é de hoje que entidades como a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) monitoram o impacto que plataformas como o Instagram e Facebook causam no exercício da profissão jornalista: a atividade intelectual não é valorizada e, infelizmente, cada vez mais ditada pelos insanos algoritimos, que se alteram frequentemente em função das métricas de audiência e engajamento de seus consumidores.

Logo, não há tempo para correta apuração noticiosa – isso, sim, é censura ao direito universal de liberdade de imprensa -; tampouco salário digno para os profissionais de imprensa. Há, pelo menos, uma década.

O Meta teme a censura. Mas rouba no jogo, desavergonhadamente, ao burlar as leis e a vazar infinitos dados e prejudicar a democracia – não dá para esquecer o escândalo da empresa de marketing Cambridge Analytica quem em 2018, roubou informações de mais de 87 milhões de usuários do Facebook. Os dados foram usados para criar-se algoritimos de manipulação de pessoas. E de votos. A eleição de Trump para a presidência dos Estados Unidos (2016) e a saída do Reino Unido da União Europeia foram eventos políticos influenciados pelas redes sociais, uma “arma de guerra psicológica”, termo usado pelo programador Christopher Wylie, “o cara” que desenvolveu a coisa toda e botou fogo no parquinho. O Facebook nunca mais recuperou aqueles dados vazados.

Foi em 2016, aliás, que a moderação de conteúdo da Meta começou - logo após o Facebook ter sido acusada de ajudar na vitória de Trump nas eleições dos EUA. Em 2025, um dia depois de ser certificado como presidente, novamente, Trump se une a Mark, que acaba com a moderação. Coincidência, claro, claro, risos. O fim das democracias está próximo...

O que preocupa não é “apenas” o rumo que as eleições presidenciais tomarão – daqui, sinto arrepios antecipados pelos presidenciáveis brasileiros de 2026. Mas o rumo que tomarão um sem-fim de outras decisões globais enviesadas pela gama de usuários de redes sociais cada vez mais inflamados e negacionistas.

A pandemia de Covid-19 não aconteceu “do nada”, tampouco a resistência de uma leva de desinformados às vacinas. Los Angeles não pegou fogo do dia para a noite, inflamado pela conquista brasileira no Golden Globe (quem dera). Tampouco o Rio Grande do Sul padeceu com as enchentes e a catástrofe causada pelo aguaceiro de “ontem”, tampouco a Amazônia verdinha ficou árida, tampouco “do nada” as praias de Bali foram inundadas por um tsunami de plástico. Refugiados climáticos todos seremos, em breve. Paris Hilton, Ben Afleck, Tom Hanks e toda a galera made in L.A. que perdeu suas mansões que o diga. 

Contudo, se os bilionários não se mobilizarem contra as decisões inconsequentes das bightechs conduzidas por bilionários e contra o lobby político (que movimenta bilhões em recursos), pode-se considerar o caos. Enquanto isso, os pobres mortais sem tostões, caso de 99% dos 8 bilhões de humanos, precisam reaprender a consumir informação.

O governo brasileiro está atento à tramitação de duas leis: o Marco Legal da Inteligência Artificial (2024) e o Projeto de Lei de Regulação das Redes. O PL das Fake News, que tramita desde 2020, é conhecido como o“PL da Censura” pela oposição ao governo do presidente Lula. Se uma e outra coisa não andarem, estamos bem ferrados. Isso sem falar da fiscalização do Marco Civil da Internet, oficialmente Lei n° 12.965, de 23 de abril 2014. Em tese, as garantias à privacidade e à liberdade de expressão e os direitos e deveres de quem usa a internet no Brasil estão lá.

E agora, José? O que eu faço com meus perfis no Meta?

 

Backup de tudo: eu faria. Preste atenção no avanço dos conteúdos políticos e no fervor dos discursos: use o sistema límbico com bom senso. Cuidado redobrado com a fonte dos conteúdos. Leia mais notícias de fontes de informação realmente verificadas.

O texto é longo e, nem de longe, deveria ser curto ou, valei-me Deus, raso. Mas, por uma questão de bom senso, não devo me estender tanto mais. Fato é que venho discutindo essa pauta há 10 anos e concatenando os fatos. Eu disse fatos. Há uma década, o mundo esquentou mais do que deveria (segundo o relatório do Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas (C3S), ultrapassamos o limite de aumento de 1,5ºC em relação aos níveis de 1850-1900, estamos mais febris e doentes). E, muito por isso, não temos tempo a perder. A mobilização não deve, porém, depender do uga buga na redes sociais (onde nos conectamos e, agora, falaremos o que queremos, pelo jeito?). Ou das mídias sociais (onde nos alimentamos de informação). A mobilização precisa ganhar os cérebros (muita leitura e ponderação) e nos lançar à ação.

Nos grupos de discussão dos quais participo, já provoquei bastante. Foi ótimo ouvir opiniões diferentes de designers, engenheiros de alimentos, empresários, profissionais da comunicação, agentes de marketing, profissionais da saúde e mais. Lá pelas tantas, trouxe algumas observações sobre as consequências do anúncio do Meta para quem empreende. E de como é vital acreditar no óbvio: é preciso apostar noutros pontos de contato que não as redes sociais.

Para as empresas, Facebook, Instagram, TikTok, LinkedIn e afins são, sim, mídias sociais (para além de redes sociais, pois ganham outras funções). Ou seja, plataformas usadas para divulgação de conteúdos de marca, de marketing, para a promoção de vendas, ouvidoria, monitoramento de jornada do usuário, SAC, etc. A aposta no Inbound Marketing e em conteúdos signatários sempre foi algo que defendi junto a meus clientes da consultoria de branding. Blogs dentro de sites empresariais são uma excelente alternativa. Apostar somente na mídia social é um grande risco que alguns insistem correr.

É preciso investir em comunicação. Custa fazer um bom planejamento e execução de comunicação. Investimento que compensa a médio/longo prazo. Há diálogo e geração de valor.

No caso das redes sociais, tecnicamente gratuitas e muito dinâmicas, fluidas, os produtos somos nós - CPF's e CNPJ's, a troco de dados e de informações. A performance pode até ser boa a curto prazo, mas a que custo? Quanto vale um like and share? A vida de quem? 

Aposto, como pesquisadora das relações entre o consumo de informações e o de alimentos, que impactam consideravelmente o cenário da sustentabilidade que deveríamos crer para cer, que deve-se consolidar uma prática editorial entre as marcas. Ou seja, uma dedicação maior à comunicação e defesa de propósitos, produtos, posicionamentos oficiais. Uma institucionalização da "verdade" e uma maior divulgação de informações, de forma transparente. Isso faz parte da batalha por atenção à qual estamos submetidos e, as marcas que souberem jogar, tenderão a reforçar os totens de autoridade e referência em suas áreas de atuação. Não é nada. Mas já é um tanto.

Acredito que os jornalistas e os veículos de imprensa deveriam se lembrar do papel e da responsabilidade que têm com a sociedade, globalmente. Ao trazer esta pauta e ouvi-los, creio estar cumprindo meu dever como comunicadora social que sou.

Vivemos um momento complexo e divisor de movimentos na comunicação. O volume de dados - e o que as bigtechs fazem com eles - é algo a se repensar. A ponderar acerca de leis que resguardem cidadãos e seres humanos. Os bots são alimentados pelos nossos prompts. Desenhamos o que queremos com base em nossos vieses. As I.A.’s não tem moral ou cívica, só para lembrar. Sentem o que seus “criadores humanos” sentem.

Penso ser imprescindível ponderar bastante (bastante) antes de "promptar" e crer que todos os recursos disponíveis são isentos - vide ChatGPT, Geminus, Sora, Pika, Whisk, Veo (a lista é exponencial).

Uma leitura boa neste momento é Nexus, do Yuval Harari. Outra, Nação Dopamina, de Anna Lembke. Ambos lidos e sublinhados aqui em 2024 e 2023. Outra, Como Morrem as Democracias, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (2018). 

Muitos #MotivosParaDialogar sem polarizar.