
Érica Araium
Idealizadora de Diálogos Comestíveis, estrategista de branding, marketing e comunicação. Jornalista. Palestrante. Ávida por #MotivosParaDialogar.

Érica Araium
Idealizadora de Diálogos Comestíveis, estrategista de branding, marketing e comunicação. Jornalista. Palestrante. Ávida por #MotivosParaDialogar.
Quanta "caca" você consumiu até chegar até aqui e ler este texto de ponta a ponta? LEIA ATÉ O FINAL SE FOR INTELIGENTE.
O cérebro eletrônico faz quase tudo. Mas ele é mudo, como diria o baiano Gil. No contexto da comunicação atual, o consumo excessivo de conteúdos fúteis nas redes sociais ganhou alcunha e pode levar a uma condição conhecida como “brainrot”, ou "podridão cerebral". O termo que surgiu em 2007 e alardeia pediatras contemporâneos, vem ganhando atenção em pesquisas mais recentes, justamente porque descreve o impacto negativo que o consumo contínuo de informações superficiais e de baixa qualidade pode exercer na capacidade cognitiva e no bem-estar mental dos indivíduos. Em outras palavras, toda rede social é o mesmo que aquela junk food rica em sal, gordura e açúcar capaz de premiar seu cérebro com dopamina em excesso. Estamos fartos de tanto too much, lembra? Ah, eu já disse isso antes.
Diante desse cenário, a responsabilidade do chamado “produtor de conteúdo”, ou “creator”, torna-se ainda mais crucial. Ora, ser “produtor de conteúdo” significa criar, curar e distribuir informações em diversos formatos e plataformas com o objetivo de engajar, informar, educar ou entreter um público específico. Esse papel tem se tornado central na era digital (algo meio óbvio para os nativos digitais, convenhamos). Esses tempos hipermodernos em que a comunicação é rápida, multimodal e acessível. Transmídia e assustadoramente veloz.
Um pouco de teoria da comunicação para ajudar
Se olharmos para a teoria da comunicação, especialmente para as ideias de Marshall McLuhan, veremos que “o meio é a mensagem” (McLuhan, 1964). Significa que a forma como o conteúdo é apresentado (meio) é tão importante quanto a própria mensagem. Sim, temos de nos lembrar dos tempos líquidos de Zygmunt Bauman e ressaltar que a insegurança permeia a tomada de decisões. Somos cada vez mais levados a. Ah, eu também já disse isso antes.
Assim, um produtor de conteúdo precisa entender as nuances de diferentes plataformas e como elas influenciam a percepção e o engajamento do público. Há até um movimento amploávido pela originalidade dos conteúdos e pela ojeriza às recalcadas celebridades que insistem em performar a perfeição a todo instante. A melhor performance criativa ocorre em coletivo, em bando. E traz resultados impressionantes.
Por isso, vale lembrar, ainda, de Pierre Lévy, que destaca a importância da inteligência coletiva na era digital, onde a produção de conteúdo é um processo colaborativo e interativo (Lévy, 1994). Isso implica que os produtores de conteúdo devem ser capazes de dialogar – temos #MotivosParaDialogar de sobra, veja! - com suas audiências, respondendo e adaptando-se às suas necessidades e feedbacks em tempo real.
A curadoria de conteúdo também é fundamental a quem produz informação. Segundo a Henry Jenkins, estamos em uma era de “cultura da convergência”, onde consumidores de mídia são também produtores (Jenkins, 2006). Isso requer habilidades de curadoria para selecionar, organizar e apresentar informações relevantes de forma que agreguem valor ao público. O que consumimos – não me venha com junk food pois meu cérebro é exigente! – nos molda. Todo comer somos nós quem desenhamos, lembra? Ah, eu já disse isso antes! Gosto é gosto? Sim, mas é construído.
Ao abordarmos o conceito de "gosto", devemos nos remeter a Pierre Bourdieu, que trouxe à luz a noção de construção de “repertório”, nos anos 1960. Para o teórico francês, o gosto não é simplesmente uma preferência individual, mas um reflexo de condições sociais e culturais uma vez que nossas escolhas e preferências são moldadas por nosso capital cultural e social. O gosto é uma forma de distinção (Bourdieu, 1984). Dessa maneira, o produtor de conteúdo deve estar atento aos repertórios culturais de seu público, criando conteúdos que ressoem com esses gostos construídos socialmente.
Trago para essa conversa repleta de desatinos, ainda, Gilles Lipovetsky, que, por sua vez, oferece uma perspectiva valiosa sobre a contemporaneidade ao discutir a “Era do Vazio”. Ele argumenta que vivemos em uma época marcada pelo hiperindividualismo e pelo consumo de experiências efêmeras, onde os gostos e as preferências são constantemente moldados por uma busca incessante por novidade e autoafirmação (Lipovetsky, 1983).
Nesse sentido, o produtor de conteúdo deve reconhecer esse contexto e buscar equilibrar a oferta de conteúdos que satisfaçam tanto as necessidades individuais quanto as coletivas, proporcionando experiências significativas em meio a um cenário muitas vezes vazio de profundidade.
Outro aspecto crucial a ser considerado é a influência dos algoritmos e dos vieses na construção de conteúdo. A Inteligência Artificial (IA), como a do Chat GPT, desempenha um papel significativo no “entortar” de conteúdos, algo que pode levar a um fenômeno preocupante: a criação de bolhas de informação. Algoritmos, afinal, são programados para priorizar conteúdo com base em interações anteriores dos usuários, algo que pode resultar em um ciclo de retroalimentação onde os consumidores de informação são expostos apenas a perspectivas que reforçam suas crenças pré-existentes. Esse fenômeno é conhecido como “filter bubble” ou bolha de filtros (Pariser, 2011).
Exato. Eli Pariser, em seu livro “The Filter Bubble: What the Internet is Hiding from You” (2011), discute como os algoritmos das redes sociais e dos mecanismos de busca personalizam os resultados para os usuários, limitando sua exposição a conteúdos diversos e potencialmente críticos. Isso cria uma falsa sensação de verossimilhança, onde as informações recebidas parecem verdadeiras apenas porque são consistentes com o que o usuário já acredita. Isso pode levar a uma fragmentação social e à polarização, conforme as pessoas ficam presas em suas próprias bolhas informativas. Às vésperas de eleições, este parágrafo merece ser lido e furado para avançarmos.
Portanto, ser produtor de conteúdo hoje exige um entendimento profundo dessas teorias e a habilidade de aplicar esses conceitos na prática diária de criação, curadoria e distribuição de conteúdo, sempre com um foco claro nas necessidades e expectativas do público. É um papel que envolve não apenas a técnica, mas também uma sensibilidade aguçada para os gostos e repertórios culturais, bem como uma compreensão crítica das dinâmicas sociais contemporâneas e dos riscos associados aos vieses algorítmicos e às bolhas de informação.
GOSTOU DESSE CONTEÚDO? Compartilhe, comente, curta. Ele foi escrito por uma jornalista com 23 anos de experiência em comunicação – Érica Araium - e que tem, na estante de casa, todos os livros citados aqui. O conteúdo circula em sinapses no cérebro nada eletrônico dela, que vive com seus #MotivosParaDialogar.
Quer tratar de estratégias de marca e de comunicação? Escreva.
Fontes relevantes citadas neste conteúdo:
- Marshall McLuhan, "Understanding Media: The Extensions of Man" (1964): McLuhan explora como os meios de comunicação influenciam a sociedade e a percepção humana.
- Pierre Lévy, "L'intelligence collective: Pour une anthropologie du cyberspace" (1994): Lévy aborda como a era digital transforma o conhecimento e a comunicação em um processo colaborativo.
- Henry Jenkins, "Convergence Culture: Where Old and New Media Collide" (2006): Jenkins discute como a convergência de mídias altera a relação entre produtores e consumidores de conteúdo.
- Pierre Bourdieu, "La Distinction: Critique sociale du jugement" (1984): Bourdieu analisa como as preferências culturais são determinadas por fatores sociais.
- Gilles Lipovetsky, "L'ère du vide: Essais sur l'individualisme contemporain" (1983): Lipovetsky explora o impacto do hiperindividualismo na sociedade contemporânea.
- Eli Pariser, "The Filter Bubble: What the Internet is Hiding from You" (2011): Pariser discute como os algoritmos criam bolhas informativas que limitam a diversidade de perspectivas e contribuem para a polarização social.