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Ficções, com uma veríssima Vera Holtz, nos rasga em bilhões de humanos paradoxos

Ficções, com uma veríssima Vera Holtz, nos rasga em bilhões de humanos paradoxos

| Érica | Na ponta da faca

Érica Araium

Idealizadora de Diálogos Comestíveis, estrategista de branding, marketing e comunicação. Jornalista. Palestrante. Ávida por #MotivosParaDialogar.

Érica Araium

Idealizadora de Diálogos Comestíveis, estrategista de branding, marketing e comunicação. Jornalista. Palestrante. Ávida por #MotivosParaDialogar.


A história da humanidade é pura ficção. Enviesada molécula a molécula. E tantas benditas falhas nunca contadas viraram nada e tudo e tudo ou nada nas mãos do dramaturgo Rodrigo Portella, que assina o texto de Ficções, peça idealizada por Felipe Heráclito Lima e estrelada por Vera Holtz (atriz). 
 
O monólogo vira dueto graças ao espirituoso Federico Púlpito (músico), que nos faz bailar, entre teclados e cordas, pelo incômodo da obra-prima de Yuval Noah Harari: Sapiens, uma breve história da humanidade (2011). Não se trata de uma adaptação, mas de uma a-dap-ta-ção.
 
Se o autor original questiona tudo o que sabemos sobre a trajetória humana no planeta ao explorar quem somos, como chegamos até aqui e por quais caminhos ainda poderemos seguir, a versão brasuca e teatral da obra nos rasga em bilhões e seus paradoxos para que, talvez, saibamos, finalmente, quem somos em meio a cúmplices.
 
Nada se repete no teatro, embora se repita o jogo de cena. A plateia como par é o que dá sentido à trama. Ao longo de quase duas horas de cena, a realidade nos lanceta, soca, aglutina. E nos faz rir das desgraças todas. Questionar, depois de um passeio por 4,5 bilhões de anos: haverá futuro? Qual o sentido de tudo isso?
 
Em Campinas (SP), no herói da resistência Teatro Castro Mendes, assistimos às provocações alheios ao calor desumano e antrópico. Eram cinco centenas de sapiens e eu. Aplaudimos, colaborativamente, cada atitude. E que atitudes atuantes, sapiens Vera!
 
As trocas de figurino em cena, os peitos plásticos à mostra dignos de palma com palma, as gags, o improviso, o cajado, a pedra pesada "de isopor", a moldura "de inox", o púlpito "galhado", as bananas, o berrante, a manequim que vende ouro, a rouparia, os humanos. Tudo parece funcionar caoticamente no palco. Até o cinza e o bege do comedido desmedido cenário.
 
O roteiro é tão (brilhantemente) caótico quanto a evolução humana. Parece uma fanfic bem-sucedida do livro de Harari e estrelada por uma Vera Holtz que se veste só de "Vera", a atriz casada com um coincidente professor Harari e mãe de Enzo. Enzo!
 
É difícil resumir as mais de 400 páginas da obra e as milhares de perguntas do autor em uma linha de raciocínio coerente. Ainda assim, meio non sense, a proposta funciona. Emociona e atordoa. Porque o texto, de certa forma, é reescrito, a cada estreia, com cada plateia.
 
A arte, afinal, não serve para ilustrar o real, mas para fixar-se adiante da fuça, instintiva e animalesca, como ponto focal da fuga nômade que, volta e meia, ensaiamos fazer. E não fazemos porque alguém inventou até o nosso senso de liberdade.
 
Em dado momento de interação absoluta com a geral, todos de pé, nos perguntamos, juntos: - Para quê trabalhar tanto? Para quê imóveis, cartórios, governos, empregos? Para quê leis, países, empresas e marcas de sucesso? Para quê proscênio e coxia se não para distrair o tédio? Para quê tanta história inventada para narrar-se a História?
 
Vera Holtz, é bom repetir o óbvio, ganha de todos falando sozinha com suas mil personagens na cabeça e certo sotaque "caipirês". É admirável, um privilégio ver uma senhora atriz tão inspiradora e instigante em cena. Até o Homo deus, a uma hora dessas, deve estar encomendando um novo algoritmo à verdade e aos seus fiéis ciborgues. Uma nova versão de Ficções, onde é o asno antagonista, por quê não?
 
Vera, em cena, é veríssima. Por duas vezes, num trecho em que se esqueceu do texto, enquanto interpretava e alternava vozes dissonantes e interagia com a plateia, quis abraçá-la e dizer "obrigada". Vera é a mais humana de nós nos seus momentos de breu. Nos representa a todos. 
 
E, febril num momento dedicado ao papel da mulher em milhares de anos de evolução, deixa claríssimo, sem atrito, que o destrate ao feminino nunca foi ficção em versão alguma da nossa história. Que o patriarcado merece rever sua posição "narrador" e visitar o lugar "sobrevivente". O que seria de nós, aliás, se a narrativa de tamanha criação fosse estritamente ou majoritariamente mulheril? Até nisso pensamos com Portella, Vera e Felipe.
 
Depois de nos chacoalhar sem trégua, de cantar em duo e solfejar com todas as nossas vozes, de orquestrar o coro dos macacos-verdes, Vera cintila e ecoa no escuro, em meio a sons de guerra, alvoroço e desolação de nossas mais tristes misérias. 
 
Haja sapiens, Harari, para assistir a tantas Ficções.
 
Vera Holtz diva em Ficções, que teve curta temporada em Campinas/SP.
 
PS: Campinas, cujo público consumidor de cultura é bem peculiar (chato!), merecia um espaço melhor, com mais infraestrutura, para peças teatrais e demais espetáculos assim. Não me conformo com os equipamentos culturais disponíveis numa cidade que figura como a 4º cidade mais cara do Brasil para se viver. Sem estacionamento e cada vez mais inseguro, o TCM faz o espectador bancar absurdos como R$ 20 aos flanelinhas e R$ 30 pela pipoquinha do ambulante turrão. Tristeza, né, gente. Radamés Bruno: parabéns pelo brio de não desistir de produzir por aqui.
 
***
 

O LIVRO

 
Para quem não leu Sapiens ou Homo Deus ou 21 Lições Para o Século 21 ou Nexus - tudo de Harari, algumas considerações. Se pensarmos com nossos botões, a convite do historiador israelense, veremos que não somos sapiens há tempos. E que, talvez, tenhamos, legado à tecnologia o direito de nos submeter a novos vieses - mas não há justiça na história. Triunfamos, antes, sobre outras espécies porque colaboramos uns com os outros. E agora? Seremos somente história? Pura ficção?
 
1) filosofia: Portella, diretor e autor de Ficções, e Harari, o autor de Sapiens, se aproximam ao nos fazer filosofar sobre os nossos sistemas de crenças e os mitos que todos vimos sustentando. De forma escrita, há pelo menos 5 mil anos. De forma oral (e gutural) há 2,5 milhões de anos. O Homo sapiens conquistou o mundo graças à linguagem!
 
2) não-linearidade: apesar de haver uma história a ser contada coerentemente, Harari faz digressões o tempo todo em Sapiens. E convida o leitor a imaginar outros mundos povoados por "homens sábios" com ele, ao filosofar e saltar no tempo por meio de suas perguntas. Isso incomoda os leitores fãs da literalidade. São eles os primeiros a decretar a superficialidade da obra. É preciso reler alguns parágrafos, sim, antes de avançar em quaisquer obras de Harari, embora seja didático e criativo.
 
3) humor e ironia: Harari é irônico e despeja humor fino em boa parte de seus textos. A peça de Portella tem as mesmas características. Rir de si mesmo e reconhecer falhas e rupturas é algo extremamente humano. Por isso, creio mesmo que Vera Holtz diva em Ficções.
 
4) o trigo: a Revolução Agrícola, há 12 mil anos, é apresentada por Harari como sendo a maior fraude da história chancelada por ingênuos acadêmicos. Em Ficcções, a saída genial de Portella foi tratar do capítulo pela voz do personagem "trigo", que fala de um púlpito galhado com a plateia. O trigo domesticou a humanidade, crédula e preguiçosa. A colocou numa situação hedonista, conformada e mimada, mas, supostamente, melhor em relação à realidade caça-coleta. Para Harari, a derrocada dos sapiens culminou com a agricultura. "Como o trigo convenceu o Homo sapiens a trocar uma vida boa por uma existência mais miserável?", questiona Harari no livro. Gosto.
 
5) a história: por ser sobre as histórias que defendemos sobre a História e não histórico, digamos assim, o livro foi apedrejado por muita (muita) gente e recomendado muita gente da laia de Bill Gates e Mark Zukerberg. A comunidade acadêmica o vê como um pop star a ser evitado porque o historiador se perdeu dos fatos, ao longo do tempo, e sagrou-se uma celebridade que se esqueceu de dar créditos a cientistas, autores e mais. É mesmo perigoso contar histórias quando mais as parafraseamos que as transmitimos. Os livros que vieram em sequência a Sapiens são desdobramentos dessa lógica parafraseante e estão ancorados em abas de pensamento que ficaram abertas em Sapiens. 
 
PS: li todos os livros de Harari sem criar expectativas, mas com lápis e post-it na mão. Valem cada caractere. Na foto abaixo, feita no A Cabrita Café, em Joaquim Egídio/ Campinas (SP), quase sem querer, falta Nexus.