Biodiversidade: a causa de um planeta só
Biodiversidade: a causa de um planeta só

Érica Araium
Idealizadora de Diálogos Comestíveis, estrategista de branding, marketing e comunicação. Jornalista. Palestrante. Ávida por #MotivosParaDialogar.

Érica Araium
Idealizadora de Diálogos Comestíveis, estrategista de branding, marketing e comunicação. Jornalista. Palestrante. Ávida por #MotivosParaDialogar.
Por que não falamos de vida em meio ao caos? Desde 1992, o Dia Mundial da Biodiversidade é celebrado em 22 de maio. Instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), a data reverbera em quem é ativista – e não somente entusiasta - de todas as pautas relacionadas à Agenda 2030 e ao ESG (Environment, Social and Corporate Governance). Não ressoa com força, porém, em ambientes onde a discussão sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) deveria servir tal enzima à reação química que nos faria abandonar o estado dopaminérgico da remediação do caos.
Explico. Hoje, por exemplo, estive na edição Campinas do Fórum Brasil de Gestão Ambiental, sediado na Facamp (Faculdade de Campinas). Falou-se muito sobre gestão ambiental (pauta macro), mitigação e consequências da ação humana sobre a natureza – as enchentes do Rio Grande do Sul o case máximo do descuido. Sobre a data, ainda que por efeméride, não ouvi, nem na abertura, desfalcada por participantes que tiveram dengue – vivemos uma epidemia de mosquitos e calor extremo em pleno Outono. Achei peculiar, metafórico e didático. E isso me fez escrever. Aos poucos, pondero, vamos caindo, um a um, em meio a muitos discursos eloquentes, mas repetitivos, e algumas poucas e tímidas ações em rede.
Enquanto ouvia as duas primeiras explanações do dia, abertura e painel sobre compliance, para uma plateia aparentemente desconectada da urgência e com a atenção ceifada pelos celulares, ponderei sobre as datas que circularam nas últimas cinco décadas sob as máximas dos tratados de “vamos salvar o planeta”. E dei-me conta, ali, de que, apesar de todos os esforços, seremos somente história se seguirmos nossa jornada pela “mitigação” sem levar em conta que dependemos uns dos outros (seres vivos, todos). Talvez seja o momento de olharmos mais uns nos olhos dos outros, de verdade.
Senti, em meio à digressão, como se vivêssemos de novas campanhas para salvar os micos-leões-dourados ou as baleias, tal fazíamos nos anos 1990. Mas, agora, temos de salvar milhares de espécies que desaparecem com a rapidez de um algoritmo recém-criado por um adolescente da geração Z. Venho entendendo, a duras penas, que não há tempo a perder.
Acredito que, justamente, a manutenção da biodiversidade nos assegura um lugar um pouquinho mais seguro para onde nos dirigiremos, em breve – pois seremos, todos, refugiados climáticos em 10 anos, nas melhores previsões.
E por falar em efemérides, algumas delas nos ajudaram a chegar até aqui. A Primavera Silenciosa de Rachel Carson, de 1962; a discussão sobre o “desenvolvimento sustentável, em 1972, divulgação do relatório de Brundtland “Nosso Futuro Comum”, de 1987; a Eco 92, sediada no Rio de Janeiro; o desenvolvimento e a divulgação do Triple Botton Line – o Tripé da Sustentabilidade de John Elkington, norte às corporações – a partir de 1994; o Acordo de Paris de 2015 e a Agenda 2030; a elevação da temperatura da Terra em mais de 1,5 ºC ao longo de um ano inteiro, de acordo com o serviço climático da União Europeia, já em fevereiro de 2024; o prenúncio do atingimento de cinco pontos de não retorno, em dezembro de 2023 (Global Tipping Points).
Vale lembrar, ainda, que, em março de 2023, o IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, divulgou o relatório síntese do seu atual ciclo de avaliações sobre o aquecimento global provocado pelo homem - o próximo só deve ser publicado na borda de 2030. Para que haja alguma esperança à biodiversidade, precisamos reduzir as emissões globais pela metade até 2030 [48%] e até 99% até 2050. Ou seja, cessar o uso de combustíveis fósseis e fazer-se uma transição energética compromissada e possível. Também há urgência em resolver os problemas de segurança alimentar (fome) e hídrica (sede), globalmente. Produzido por um dos braços da ONU, o Mapa da Fome estimou, em 2023, que 111 países enfrentam situação crônica de falta de alimento. A mudança climática reduziu a segurança alimentar e afetou a segurança da água. Ao mesmo tempo, os eventos de calor extremo explodiram tanto quanto as taxas de mortalidade e a incidência de doenças endêmicas. Morreremos, então, de dengue, cólera e leptospirose?
Talvez, se não houver a transição para o enfoque One Health que inclua a biodiversidade, como propôs o quinto relatório Panorama da Biodiversidade Global da ONU, divulgado em 2020: gestão de ecossistemas, incluindo ecossistemas agrícolas e urbanos, bem como o uso da vida selvagem, por meio de uma abordagem integrada, para promover ecossistemas saudáveis e pessoas saudáveis.
Concomitantemente, e apesar da maior conscientização e criação de políticas públicas, o planejamento e a implementação da adaptação das cidades está muito aquém do necessário. Isso alerta para o fato de que, no Brasil, teremos um 2024 crítico de eleições municipais. Muitos oportunistas devem surgir atentos à grande oportunidade de vender seus lenços.
Trago as referências citadas ao final do texto. Poderia seguir aqui elencando a catástrofe e seus indícios, mas não vale à pena. É mais producente dizer do risco que estamos correndo ao não levarmos a sério os avisos dados por milhares de cientistas e instituições intergovernamentais.
Noutro sentido, o diálogo, que nasce na dialética, ou seja, na diferença entre pontos de vista, será o melhor recurso à ação. Seria ótimo se planos de ação rodassem imediatamente após eventos como o de hoje.
Acredito que é o momento de nos desterritorializarmos (entendermos que há abismos que nos unem e linhas que nos distanciam) e horizontalizarmos (equalizarmos a humanidade) em prol de um futuro possível às próximas gerações. Seria esse um bom legado.
Tenho feito a minha parte e me colocado à disposição das empresas para promoverem gestões de marca realmente inclinadas à sustentabilidade – do storytelling ao storydoing. Diálogos Comestíveis está aqui para agir, por meio de um trabalho amplo de comunicação. Temos cada vez mais #MotivosParaDialogar.
Referências:
- antes do ESG, entenda: The Triple Bottom Line: What Is It and How Does It Work? (indiana.edu);
- aqui está resumo do sexto relatório do IPCC: IPCC_AR6_SYR_LongerReport.pdf;
- aqui está o quinto relatório Panorama da Biodiversidade Global (GBO-5, em inglês), publicado pela Convenção das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica (CBD): Global Biodiversity Outlook 5 | Convention on Biological Diversity (cbd.int);
- aqui um documentário porreta sobre a ação de “Mulheres na Conservação”, uma Produção de Paulina Chamorro e Sylvio Rocha indicada à categoria melhor filme de meio ambiente do Toronto International Women Film Festival- 2024. Mulheres na Conservação - ((o))eco (oeco.org.br)
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Compartilhe este texto com quem precisa saber mais sobre ESG e com empreendedores que precisam desenvolver um projeto de branding/ comunicação voltado ao ESG