Os dez brotos de nossos Diálogos do Alimento no Fru.To

Foi uma catarse tripla: idealizadores (Alex Atala e Felipe Ribenboim + Instituto ATÁ) e organização; plateias (houve a presencial e a virtual) e os 31 palestrantes deixaram o auditório da Unibes Cultural, em São Paulo, no último dia 27 de janeiro, motivados - ouviu-se muito falar em tesura, em motivação (ou motivo para ação) ao longo dos dois dias da primeira edição do Fru.To: Diálogos do Alimento. Os cases apresentados por gente bamba brasuca, israelita, holandesa, estadunidense, dinamarquesa e de muitos outros universos ("cada pessoa é um mundo") foram maneiros. Nesta reportagem, destacamos em textos, fotos e vídeos, que aos pouquinhos estarão em nosso canal no YouTube, um apanhado de #MotivosParaDialogarDez Brotos daqueles Diálogos do Alimento. Bom para quem perdeu as transmissões do Fru.To ou a cobertura que fizemos pelo Instagram, com uma forcinha do Stories. Fotos e artes: Érica Araium. 

Depois desse compêndio, falta só arregaçar as mangas para dar-se continuidade ao proposto para a agenda do evento. As "10 sementes para serem plantadas e cultivadas por todos", redigidas pelo premiado jornalista ambiental Claudio Angelo", levam em conta a problemática, acentuada pelo desenvolvimento econômico insustentável e o mau uso dos recursos naturais; e os pontos de virada. Veja o resumo dos ais e porvires que Fru.To lançou e Diálogos Comestíveis quer muito ver brotar:

Os Dez Brotos dos Diálogos do Alimento, por Diálogos ComestíveisAs palestras, transmidas ao-vivo pelo canal da marca que acaba de nascer, no YouTube, geraram buzz interessante ao redor dos três eixos abarcados: social, biológico e cultural - reforço aos tripés do Slow Food e do Tripple Botton Line (TBL), como contamos na reportagem de apresentação. Não teve aquela de cozinheiro mexendo a caçarola e ensinando receita. Foi-se além.

"Pela primeira vez no mundo, um cozinheiro, promoveu um evento holístico. Multidisciplinar. Convidou as pessoas a pensarem em como alimentar o mundo e preservar a biodiversidade. Isso é genial", observou o fundador do movimento Slow Food, Carlo Petrini.
 
 
Carlo Petrini, fundador do Slow Food, participou do Fru.to


Se foi a primeira vez de uma ágora como foi esta liderada por um cozinheiro: provável. Mas, não nos esqueçamos de outras iniciativas inspiradoras como o MAD, idealizado em 2011 por René Redzepi, do Noma (prestes a ser reinaugurado); e do Encontro Mundial de Chefs, relizado por Luiz Farias, pela primeira vez, em 2017, em Guararema (SP), para onde levamos a palestra Restos e Raspas, onde sustentabilidade e food styling caminharam juntinhos - vide o tartar de paleta bovina e vinagrete de talos de coentro e beterraba (sazonais) que desenvolvemos em parceria com o chef Juliano Albano.

Então. E... Na verdade, o Fru.To foi pautado por DOIS cozinheiros (Felipe Ribenboim é gastrônomo, antes de tudo, embora aja como produtor cultural, e dos porretas, internacionais, desde 2012, na Base7 Projetos Culturais, fzendo coisas realmente admiráveis, como a exposição "Alimentário – arte e construção do patrimônio alimentar brasileiro").

 

Felipe Ribenboim é gastrônomo, antes de tudo, embora aja como produtor cultural desde 2012
Felipe Ribenboim, gastrônomo e produtor cultural, semeia ideias no Fru.To


Ah, mas que foi massa ver o sorrisão de Atala, bem em frente ao "papa". E também nos bastidores, na Fazenda da Toca, entre pares de todos as tribos e afetos. O faça você mesmo da punk de outrora, revigorado, virou o "façamos juntos pelo todo". Virou exemplo. De novo.

 


"Estamos num momento de reconexão com o ser humano. Vivemos a ditadura da internet, embora seja favorável à internet. O que nos falta é olhar mais um nos olhos dos outros e praticar o exercício da primeira virtude humana, que é o livre arbítrio, que é poder escolher. Também está clara a desconexão do homem com o alimento, que é a vida. Não me assusta que a maioria dos brasileiros não conheça 1% da nossa biodiversidade, das nossas frutas, que seja. O que e estarrece e faz mal é pensar quantas pessoas no mundo reconhecem um pé de laranja sem fruta. Reconectar o homem ao alimento e o homem ao homem é talvez o grande segredo de um amanhã melhor", ponderou Atala, olho no olho.
 

Alex Atala, organizador do Fru.To:
Alex Atala, organizador do Fru.To: "Esse evento é de todos nós".
 


Massa também foi ver o envolvimento de uma leva de atores da gastronomia, de produtores agrícolas a pesquisadores de peso, a representantes de governos e centros de tecnologia, a jovens cozinheiros, a estudantes: entre convidados in loco e interessados online. Cruzamos com um tantão de gente bacana da seara gastronômica. Laurent Suaudeau, Neide Rigo (Come-se), Bel Coelho (Clandestino), Rodrigo de Oliveira, Gabriela Monteleone (sommelier), Mara Salles (Tordesilhas), Kátia Barbosa, Priscila Sabará (FoodPass), Daniela Leite (Comida Invisível), Felipe Schaedler (Banzeiro), Paulo Machado (Instituto Paulo Machado)... 

Mancada, teve? É. Faltou oportunidade para o público interagir on time, com os especialistas (um debate ao final dos módulos, com as perguntas enviadas previamente, resolveria a parada). Dica para 2019. Nada que comprometesse, porém. 


Porque intervalos para os cafezinhos da manhã ou da tarde, houve prosa solta com a geral, tempo de firmar parcerias; passeio virtual (com uso de óculos para realidade ampliada) pela Floresta Amazônica (iniciativa do Instituto Socioambiental); prova, no paraíso, dos doces frutos da gastroperformance de Simone Mattar (repare na foto de abertura deste post); pitaco na playlist de Patrícia Palumbo na Rádio Vozes; bebericar água de filtro fresquinha. De ponta a ponta, o evento foi caprichoso nas menções entrelinhadas das tantas tradições brasileiras. Deu pra se sentir em casa.

 

Intervalo do Fru.To: hora de por a prosa em dia
Intervalo do Fru.To: hora de por a prosa em dia


A organização deve disponibilizar diversos conteúdos em breve. No site http://fru.to, o primeiro deles já está disponível - justamente o texto, na íntegra, das 10 sementes do fruto. Os vídeos das palestras estarão online a partir de fevereiro/2018. Nossos dez brotos - ou mais
#MotivosParaDialogar - abaixo, com #CadaConteúdoEmSeuLugar. 

 

NOSSOS DEZ BROTOS

 

1- EM REDES LOCAIS DE COPRODUTORES AFETIVOS



Petrini, é tão sincero quanto aguerrido. Ensina, há 30 anos, que, na batalha pelo alimento, o limpo dá condições ao bom. E que o justo depende da clareza sobre a origem, o caminho e o fim de cada insumo. Um cidadão respeitoso se dispõe, no mínimo, a compreender e a integrar a cadeia produtiva porque se preocupa com a biodiversidade e as próximas gerações. Daí a propor leis, a fiscalizá-las e a exigir soluções para as comunidades locais - que se vêem globais. Resumão da filosofia Slow Food? Boa.



"Precisamos trabalhar pela mudança com alegria. E um gastrônomo que não é ambientalista, tampouco ecólologo, é tonto, é triste. E não pode mudar o mundo. Isso é promover a política: dar passos rumo à melhoria da comunidade", decretou.
 
 
 
Carlo Petrini, idealizador do Slow Food

 


O italiano já havia passado pelo Chile e percorrido um trecho de Floresta Amazônica acreano antes de chegar à Terra da Garoa (lançou por lá o livro “A Arca do Gosto no Brasil. Alimentos, conhecimentos e histórias do patrimônio gastronômico”). Em Sampa, parecia p*.*.*o com a incoerente "gestão pública", em nível mundial. "Nunca houve tanta ausência política. Se ela já foi visionária, hoje não tem essa capacidade", afirmou, esquivando-se do verbete Trump.

Em seguida, foi taxativo ao questionar os monopólios das indústrias agrícolas e alimentícias - citou Monsanto, Nestlé etc; e parecia incoformado, ainda, com o desrespeito que houve com os queijeiros e cozinheiros brasileiros mais revolucionários. Caso de Roberta Sudbrack - em 2017, no Rock In Rio, ela viveu o disparate da tonelada de produto artesanal jogado fora por não ter o selo do Serviço de Inspeção Federal (SIF). Houve baita repercussão, debate público fomentado pelo  caderno Paladar (Estadão) e mais. "A fome voltou a aumentar no mundo. E que país é esse que joga queijo no lixo no Rio de Janeiro e dá ração ao pobre em São Paulo?", diz Petrini, referindo-se ao intento burros n'água do prefeito João Dória com sua farinata. 

Depois de expurgar o incorformismo e ser ovacionado, o italiano reforçou o afeto. Tanto nos abraços longos e sorriso fácil quanto no apelo por uma sociedade de coprodutores (e não meros consumidores conscientes) destinados a agir em prol de suas comunidades. "É preciso firmar uma aliança entre comunidades de destino. Antes de comprar orgânicos, comprar localmente, fortalecer as pessoas do entorno, de afeto", defende.

 

2-EMPODERADOS PELO CONHECIMENTO, DAMOS LIKE E SHARE

 

Sabe aquele episódio do Rock In Rio? Então. Conhece a RDC 49/2013, da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)? Que inspirou as normatizações do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), que define, basicamente, como devem ser regularizados os produtos artesanais?

Rose Mendes está por trás da salvaguarda do alimento brasileiro sem fronteiras. Uma das atribuições desta baiana, pedagoga, mulher porreta foi "a articulação e a coordenação do Projeto Inclusão Produtiva com Segurança Sanitária", que resultou na "proposição da Resolução da Diretoria Colegiada - RDC 49/2013, que dispõe sobre a regularização para o exercício de atividade de interesse sanitário do microempreendedor individual, do empreendimento familiar rural e do empreendimento econômico solidário, primeira norma da Agência orientada para o tratamento justo e favorável aos pequenos negócios".

Durante a palestra, cutucou a autoestima de um país, que não raro, fecha os olhos às crianças em lugares onde a comida visível, lançada nos contratos das gestões públicas, ao menos, se torna misteriosamente "indisponível". Aquela merenda desviada, por vezes, seria a única alimentação do brasileirinho que saiu de casa à pé, de uma lonjura, para ter aula. Isso ratifica o absurdo. O direito humano à alimentação adequada passou a ser contemplado no artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. No Brasil, graças à mobilização  mobilização da sociedade civil,  somente em 2010 foi aprovada a Emenda Constitucional nº 64, que inclui a alimentação no artigo 6º da Constituição Federal. Na prática, direito violado.

 

Rose Mendes, pedagoga:
Rose Mendes, pedagoga: "A sociedade civil precisa conhecer melhor as leis para que não ocorram tantos desmandos"


Pois o que a RDC 49/2013 defende é a diferenciação dos empreendedores e a máxima da razoabilidade. Um pequenino produtor (do que quer que seja) não pode (e nem merece, por razões óbvias de iviabilidade de custos de produção) seguir exatamente as mesmas regras que deve cumprir um meganegócio agro.

Sim. Isso é empoderamento. Rose partilha que já perdeu as contas de quantas brigas comprou enquanto atuava na Anvisa -  ora à frente da Gerência de Fortalecimento do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, ora como assessora da Diretoria de Coordenação e Articulação do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária.

Hoje, desempregada, presta consultorias diversas a quem quiser mudar contextos sociais - a mais recente, e ainda não concluída, foi ao governo de Cabo Verde, um país cuja população se equipara à da cidade de São Carlos (SP), da qual já foi vice-prefeita, e onde as dificuldades de moradia e idiossincrasias tantas são próximas àquelas da população do Norte e Nordeste brasileiros, território que Rose conhece extremamente bem. Ela nunca foi do tipo burocrata. E sente falta da repercussão de pautas mais abrangentes, pertinentes, modificadoras de contexto. De debate.


"Há mídias e mídias. Às que tive acesso foram de pessoas comprometidas com o movimento, coma inovação da legislação, com os trabalhadores, tanto os da agricultura familiar quanto da economia solidária. A grade mídia só acompanha quando acontece um fato em que a Vigilância Sanitária interdita, um momento de desgraça, como foi no Rio de Janeiro. Mas não aparecem as coisas boas que a mídia fez. Ao mesmo tempo em que a sociedade não gosta da Anvisa porque só conhece as coisas ruins que ela faz. É como digo. A RDC 49/ 2013 é algo bom que a agência fez. É uma norma voltada para a agricultura familiar, parao MEI e para a economia solidária. Até 2011, essas eram palavras desconhecidas para a Anvisa. E isso não foi divulgado. Rodamos o país todo divulgando isso. A sociedade civil precisa conhecer melhor as leis para que não ocorram tantos desmandos. Tantos atos errôneos de fiscais da vigilância sanitária. Tantos desmandos", expõe Rose, no início da entrevista que concedeu a Diálogos Comestíveis. 

 


Ora, em síntese, a mídia precisa acompanhar melhor os atores de mudanças na lógica da alimentação interna (legislação nacional) a fim de empoderar seus coprodutores. Há tantas leis que já existem e são insabidas e outras que são fiscalizadas à mercê da síndrome do pequeno poder, por vezes. 

 

Rose Mendes, em palestra no Fru.To, defende comida como cultura


 

Para Rose, comida, sim, é cultura. E, quando sabemos do que pode modificar nosso entorno, rapidamente partilhamos as boas novas, damos "like e share". "Temos de conhecer as leis e nos apropriar delas, fomentá-las e propor o que queremos de fato", resume ela. "Sou uma baiana que estou no mundo para contribuir com uma sociedade melhor, mais humana, com mais amor e fraternidade". Tanto a pedagoga quanto Bela Gil quanto a ONU (veja os tópicos 9 e 10 com mais atenção) apostam na educação alimentar infantil para a mudança de paradigmas. Algo que vimos defendendo e testemunhando também.

Lúcio Brusch, físico, pesquisador da Fundação Zeri, também foi porreta no despertar dos ais: nossos pesquisadores, sobretudo quando unidos, têm feito descobertas bacanas pela ciência e, de quebra, pela antropologia e pela cultura. Na maioria das vezes, contudo, boa parte do que é revelado não é sabido - tampouco incentivado. Se há iniciativa privada a dar bom caldo, meia dúzia de projetos deslancha.

 

Lúcio Brusch, físico, pesquisador da Fundação Zeri
Lúcio Brusch, físico, pesquisador da Fundação Zeri

"No Zeri, defendemos o caráter democrático do aprendiezado e contamos com especialistas pesquisadores e apoiadores da educação infantil. "A cultura se alimenta de cultura", lembrou ele.
 


Prosseguimos. Alimento não é comida, é commoditie, sobretudo à medida em que nos distanciamos dele (ou vai dizer que você olhou nos olhos do produtor de suas batatas doces e queijos, hoje?). Cultura é comida (cheia de significados, de pertença, de pés de galinha e de marcas do tempo, de histórias). E cultura come cultura.

 

3-SEMEAMOS AMANHÃS NOS QUINTAIS
 


Dois caras supimpa fizeram morada em nosso coração. O primeiro, paixão antiga, Ron Finley, já faz certo sucesso, há tempos, no mundo - muita gente já sabe que ele é o jardineiro fiel das urbes, talvez via TED Talk, até. Assita ao Gagsta Gardener e saia certo de que cultivar a sua pópria comida é uma boa solução em quaisquer circunstâncias. Dê um Google. Entenda o que o verbete significa. 

No Fru.To não seria diferente. Ele virou "o cara", fez todo mundo relaxar com a meditação "vocalizativa" (-Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!) do útimo dia de paletras e, humildemente, dividiu conhecimento minuto a minuto com quem se aproximou dele.

 

Ron Finley, o Gagsta Gardener de L.A.
Ron Finley, o Gagsta Gardener de L.A.



Ron modifica a zona centro-sul de Los Angeles há anos por pura rebeldia. Planta "o que for possível" em terrenos baldios, canteiros de rua, meios-fios. Por diversão, por rebeldia, pela beleza, e para oferecer alguma alternativa ao fast food em uma comunidade em que "os drive-thrus estão matando mais pessoas que a violência", como ele define.

Para ele, jardinagem é como grafite, é arte. E ele cultiva a própria arte a fim de dissipa-la às próximas gerações. Ora, se ele tem expandido os diminutos cinturões verdes em L.A. e ensnado as crianças a fazer o mesmo, absolutely respect. "Para mudar a comunidade , você precisa mudar a composição do solo", afirma. Releia a proposta de Petrini e veja se o gangsta não surpreende? Onde havia obesidade e drive-through’s de sobra, sobram hoje voluntários, de todas as idades, multiplicando jardins coletivos e comestíveis. Ron semeia respeito. 

"Crianças dançando com vegetais me deixam feliz", diz Ron Finley. 

 

Ron Finley, na Escola da Toca, Fazenda da Toca (SP)
Ron Finley, na Escola da Toca, Fazenda da Toca (SP)


Há tempos, ele cria uma rede de afetividade tão bonita quanto, mais recentemente, Ricardo Cardim, com suas Floresta(s) de Bolso. "Técnica mais natural de restauração da Mata Atlântica. Sua composição e espaçamento procuram respeitar a dinâmica original das florestas, o que proporciona um crescimento mais rápido, menor índice de perdas, baixo consumo de água e menos manutenção".

No Fru.to, Ricardo partilhou como foi a criação do Lago das Araucárias e disse das pretensões para consolidar o Parque Villa Lobos Cândido Portinari. Esse floresteiro urbano vai atrás do patrocínio para as empreitadas de seus projetos e conta com a sociedade para concretizá-los - conclama, com ajuda das redes sociais, multirões de plantio.

 

"O mato é nosso ativo. Imagine que privilégio poder recuperar com, as Florestas de Bolso, as sombras, as paisagens e as frutas características de um local centenário"?
 

 

Ricardo cardim, do projeto Floresta de Bolso

 

Os objetivos dele são reconectar a população ao patrimônio nativo, suas formas, texturas, história e sabores, resgatando a biodiversidade original no cotidiano. Na Unibes Cultural, três ambientes estavam florestados com a proposta. O palco, inclusive. Com os pinheiros - araucárias - de Pinheiros. 

Parênteses providencial. Antes de me enveredar pela comunicação social - jornalismo, jornalismo literário, marketing e branding; e, agora, pelo mestrado em divulgação cultural e científica - já achava vantagem em comer PANC, em plantar em qualquer canto e em dissipar a ideia de salvaguardar o amanhã nos pequenos espaços. Moro em um apê diminuto, mas com espaço mais que suficiente para o verde, para a horta, para o cheiroso alecrim.

Dá para ser hortelão, basta querer.
 

4-REVOLUCIONAMOS O VERDE COM AJUDA DA TECNOLOGIA


Não há dúvidas de que vivenciamos outra Revolução Verde, no centro de outra Revolução Industrial, cercados de inteligências artificiais.B lack Mirror, para quem acompanha esse raciocínio, não é uma série futurista, mas um bom documentário vanguardista. 


Cozinhar nos deixou mais humanos, em vantagem em neurônios e em evolução cognitiva, como demonstrou a neurocientista Suzana Herculano-Houzel. Agora, ela deve estar analisando  córtexes diversos, dissolvendo-os em detergente (e tudo bem, pela ciência) a fim de extrair bom suco, em seu laboratório, para contar, precisamente, de quantos neurônios certos bichos são feitos e quão poderosos são. Nós, Homo sapiens, temos 86 bilhões de neurônios em nosso cérebro. Descoberta dela.

Autora de “A Vantagem Humana: Como Nosso Cérebro se Tornou Superpoderoso” (Cia. das Letras, 2017), que lembra, grosso modo, a toada de "Pegando Fogo: Como Cozinhar nos Tornou Humanos", de Richard Wrangham, editora Zahar.

Se gastamos menos tempo caçando e comendo, graças à evolução em relação aos demais primatas, temos vantagem competitiva. "Assim, podemos pensar mais", destaca. Noutras palavras, quanto mais cozinhamos, mais temos tempo de sobra para matutar acerca de novas tecnologias, que, se bem empregadas, podem salvar o futuro.

 

Suzana Herculano-Houzel, uma das principais neurocientistas  do mundo é brasileira, mas vive nos Estados Unidos: falta de incentivo à P&D
Suzana Herculano-Houzel, uma das principais neurocientistas do mundo é brasileira, mas vive nos Estados Unidos: falta de incentivo à P&D


Pena que, ao menos em relação à ciência, e apesar de termos tantos neurônios na cachola, desperdicemos inteligência - nossos melhores estão indo embora. Vale ressaltar que Suzana, que é um dos cérebros brasileiros mais brilhantes, decidiu deixar o país porque não havia (e não há, convenhamos) incentivos para cientistas por aqui.

Ela, bióloga que já esteve ligada a Universidade Federal do Rio de Janeiro, e o físico Bruno Mota, publicaram, em 2015, um artigo que explicava as dobras do córtex, na prestigiada revista Science, o máximo meio acadêmico/ científico (isso siginifica algo como ganhar o Oscar para um ator ou as três estrelas Michelin para um chef). Naquele momento, a despeito do reconhecimento, Suzana deixou o Brasil e foi viver nos Estados Unidos.

Em 2014, a crise já havia pegado a nossa ciência em cheio. Houve dois golpes importantes: corte de 25% no orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia (ajuste fiscal) e queda de 28% nos repasses ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), fonte importante de recursos. Segundo dados  disponíveis no portal do CNPq, o auxílio à pesquisa caiu de R$ 631,6 milhões em 2014 para R$ 2 milhões em 2016. Os recursos para bolsas no exterior passaram de R$ 808,1 milhões em 2014 para R$ 13,6 milhões em 2016. Não foram "cortes" até 2017. Foram extinções? 
O que havemos de fazer para melhorar a alimentação do futuro e salvar a espécie humana e a biodiversidade nesse caos?

Aliar esforços.  Exatamente o que destacou a holandesa Ria Hulsman, da Universidade Wageningen (UW), Gerente de Cooperação Internacional com a América Latina para a UW e apoiadora dos cientistas na construção e sustentação de relacionamentos com diversos parceiros internacionais.
 

"Precisamos observar quais são os caminhos à otimização da alimentação mundial. Em 2050, poderemos ter um mundo sem fome, com alimento nutritivo suficiente, se entendermos que a tecnologia é aliada do homem", assenta.
 
a holandesa Ria Hulsman, da Universidade Wageningen (UW), Gerente de Cooperação Internacional com a América Latina para a UW
Ria Hulsman, da Universidade Wageningen (UW), na Holanda, expert em agroflorestas e Gerente de Cooperação Internacional com a América Latina para a UW


 

E se pudéssemos otimizar a fotossíntese, produzindo o dobro? E se houvesse otimização dos espaços mais inóspitos com a agricultura vertical? E se, simplesmente, enriquecessemos os solos mais pobres do mundo onde, em breve, haverá explosão populacional, como a África? E se, na África, onde há solos pobres, fosse possível recuperar o nitrogênio, recuperar o balanço hídrico e restaurar microclimas e faixas verdes? Veja o exemplo do justdiggit.org e pondere. 
A ciência é aliada. Ponto. Sinal verde?

 

5-SOMOS NÔMADES, AGROFLORESTEIROS, NÃO AGRICULTORES



O suíço Ernest Götsch é o papa da agricultura sintrópica. A agrofloresta e a permacultura, parte de um projeto de extremo respeito à natureza e à diálética da biodiversidade. Se determinadas espécies desaparecem e se, mais tarde, ressurgem, evoluídas, repare.

No Fru.To, tal Petrini, ele representou o papel da sumidade. Não ha como deixar-se de curvar a alguém que conhece as plantas pela fisiologia. "Desde a década de 1970, não uso agrotóxicos, não tiro as plantas de seus locais. Deixo-as prosperarem para otimizar os processos de vida. E disso depende um amor incondicional", define.


"Fazemos parte de um grande ecossistema. Cada indivíduo nasce equipado para se comunicar com os demais. As coisas não são para se fazer, são feitas por uma lógica natural. É preciso deixar o cronos, o tempo falar e é preciso respeitar a lógica energética. Não é possível mais que gastemos 1,2 mil vezes energia para produzir um pãozinho francês que aquele número de calorias apontado na embalagem do mesmo produto. Isso é uma afronta. O predador inteligente caça com olhar atento à capacidade de a presa equilibrar o meio ambiente", defende.
 
 
 
O suíço Ernest Götsch é o papa da agricultura sintrópica

 

Exemplo de agrofloresta, esta já em bom desenvolvimento, na Fazenda da Toca (Itirapina/SP)
Exemplo de agrofloresta, esta já em bom desenvolvimento, na Fazenda da Toca (Itirapina/SP)



Tanto Ernest, defensor dos SIF's (sistemas agroflorestais) quanto a pesquisadora e expert Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga e referência no estudo das interações dos povos indígenas com o meio-ambiente e autora de diversos livros (entre eles, "Cultura com Aspas", "Negros, Estrangeiros" e "Os Mortos e os Outros"; além de organizadora de obras famosas como "História dos Índios no Brasil" e "Enciclopédia da Floresta")... sabem que "a vida das plantas é uma grande corrida armamentista contra todos os tipos de pragas e insetos", definição da antropóloga.

Daí a cientista ponderar o fato de os Bancos de Germoplasma, "unidades conservadoras de material genético de uso imediato ou com potencial de uso futuro",  garantirem coisa alguma. Ora, se o clima e os seres humanos alteram as interações com os seres vivos que, paulatinamente, ganham mais resistência a determinados invasores/ pesticidas/ agrotóxicos/ insetos etc ao longo do tempo, como apostar numa semente adormecida há séculos para dar conta de resolver a fome no futuro?

A professora emérita do Departamento de Antropologia da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos; e professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP) destacou, na palestra proferida no Fru.To, ao lado de Jerônimo Villas Boas, ecólogo especialista na cadeia de produtos da sociodiversidade, a lógica indígena - são as tribos/ etnias as reposnsáveis pela manutenção da biodiversidade.

 

Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga defensora do papel das comunidades indígenas na preservação da biodiversidade
Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga defensora do papel das comunidades indígenas na preservação da biodiversidade


No Alto Rio Negro (AM), homens e mulheres não falam a mesma língua. Contudo, não é raro que um homem, quando sai de sua aldeia, receber, de presente, uma muda (estaca) de mandioca de sua mãe/ família.
"Como é possível que clones resultem em tantas variedades da planta? De maneira geral, os povos indígenas são nômades, não agrcultores. Responsáveis pela dispersão de espécies, pela preservação da biodiversidade", pondera a antropóloga. Como nós deveríamos ser. "A conservação in situ de variedades de plantas pode e deve ser feita pelas populações tradicionais", salienta.

Houve sim quem trouxe números sobre as agriculturas locais e mundiais... sobre os negócios no setor. Bacana saber que temos acordadas metas para a redução de CO2 até 2030. "Para isso, o País pretende também zerar o desmatamento na Amazônia Legal e restaurar 12 milhões de hectares de florestas", defende o goveno federal. Contudo, reafirmar compromissos e mostrar números não revela ações. Sentimos falta de histórias de vida transformadas. De exemplos.

Faltou esclarecer o que será feito em prol (em prol) da agricultura familiar (70% dos alimentos que vão à mesa dos brasileiros é fruto do esforço diuturno dela) até 2030 e não exatamente do desevolvimento do agronegócio, centro da palestra do ex-ministro da agricultura e atual Coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas, Roberto Rodrigues.

Entre outros dados (e foram muitos), inclusive sobre o compromisso ousadíssimo assumido pelo Brasil na 21ª Conferência das Partes (COP21), em 2015, de, até 2030, adicionar a participação de 18% de biocombustíveis na matriz energética, aumentar de 10% para 23% o uso de energias renováveis (solar, eólica e biomassa) na matriz elétrica. Meta: cortar 43% da emissão de gases poluentes até 2030. Fato: lá em 2030, vulgo depois de amanhã, teríamos de produzir 50 bilhões de litros de etanol carburante, segundo o governo.

Durante a palestra, Roberto destacou, principalmente, as facilidades para a implementação do Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura (Plano ABC) e da Rede de Fomento ILPF - parceria público-privada, criada em 2012, para incentivar a transferência de tecnologias e estimular a adoção dos sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) no Brasil.


"Estamos no caminho certo. O agronegócio enfrenta um grande desafio, mas tem condições de produzir tecnologia para promover mudanças nos sistemas de produção. Podemos garantir condições de alimentar o mundo e promover a paz. Afinal, não haverá paz onde houver fome", defende Roberto Rodrigues.

 

Roberto Rodrigues, Coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas


A ideia é otimizar os recursos e promover mudanças no sistema de produção de um mesmo solo, que  mesmo solo, tratado para a criação de animais ou o plantio (rotatividade e diversificação das lavouras), com previsão de plantio de árvores (sistemas agroforestais capazes de refrescar o clica, captar carbono e garantir bem-estar aos animais).


Vale lembrar que o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) foi extinto em 2016, pasta que fora voltada à promoção de modelos mais sustentáveis de produção. Em 2017, o plenário rejeitou a emenda do deputado Carlos Zarattini (PT-SP) à Medida Provisória 782/17 que pretendia recriar o MDA.

 

Em 2017, já havia 14 milhões de hectares ocupados em sistemas ILPF no Brasil
Em 2017, já havia 14 milhões de hectares ocupados em sistemas ILPF no Brasil

 

 

6-COZINHAMOS PARA TRANSFORMAR MUNDOS E SINAPSES
 


Além do que disse a neurocientista Suzana Herculano, é bom colecionarmos exemplos como os de Rodrigo Corrêa Oliveira, biólogo imunologista da FioCruz. Ele é defensor do conceito recente de saúde única (one health concept), que pondera acerca do estudo da saúde imunológica de todos os seres vivos de forma encadeada, ou seja: que impacto teria, por exemplo, em nossa alimentação, no futuro, a resposta imunológica dos macados ao vírus da febre amarela (ainda que uns poucos primatas restassem na Mata Atlântica Brasileira). Essa ponderação não foi feita no Fru.To, mas aqui. E é pertinente à realidade e à pensata que levou o cientista. 

Ora, se o ambiente externo é capaz de alterar nosso microbioma (genes de nossa microbiota)/ microbiota (populações bacterianas que habitam um ecossistema, que pode ser o próprio homem, por exemplo), como crer que novas doenças, mutações genéticas decorrentes das alterações ambientais não serão capazes de alterar nossa relação com a alimentação e o balanço nutricional de que carecemos hoje? Quer saber mais sobre microbiota e microbioma?

De fato, cozinhar, dominar a relação entre podres, crus, maturados, fermentados, agrotoxicados ou naturais nos faz ir além. As alterações climáticas nos fazem ir além. "Somos um bioma muito complexo e altamente adaptável", ponderou Rodrigo. Se cozinhar nos fez humanos, estudar as formas de transformar, processar o alimento, mais ainda.

 

"Somos um bioma muito complexo e altamente adaptável", pondera Rodrigo Rodrigo Corrêa-Oliveira, imunologista


Não fosse assim, não daríamos conta de produzir comida em ambientes extremos como Israel. David Leher, diretor do Instituto Arava de Estudos Ambientais, em Israel, mostrou como a agricultura ponderada pode ser vantajosa nesses locais dos quais se duvida(va). "Provomovemos o hidrossocialismo em um ambiente de altas variações hídricas e árido, em suma. A água potável de boa parte de Israel vem da dessalinização da água do mar ou do solo", afirmou. Essas águas alimentam a produção de uvas para vinhos e de tâmaras nos kibutz.

OK. A que custo? Esse é o ponto. A pegada ecológica desta solução eureka! é alta em função do altíssimo uso de energia elétrica no processo.  Hoje, cerca de 80% da água potável consumida pela população israelense é proveniente do mar. Segundo a Agência Brasil, as negociações feitas por Israel com o nosso país são lideradas por empresários israelenses diretamente com estados como o Ceará e Maranhão, que sofrem com a seca. "A agricultura do futuro precisa dar senso de motivação, de sentido ao agricultor", resumiu David.

"A agricultura do futuro precisa dar senso de motivação, de sentido ao agricultor", resume David Leher, diretor do Instituto Arava de Estudos Ambientais, em Israel, país onde a dessalinização da água "resolve" (parte d)o problema

 

7-MAPEAMOS UM MAR PARA PEIXE



Para nós, a frase resumo desta primeira edição do Fru.To foi a da brasileira Simone Jones, da Seafood Watch, ONG pertencente ao Aquário de Monterey Bay (Califórnia, Estados Unidos):  "
O pescador embrulhava no jornal as escolhas de minha mãe", disse ela, referindo-se à infância vivida à beira mar.

Que a notícia de hoje, emoldurada em linotipia caprichosa, servirá ao embrulho do peixe de amanhã, fato, desde a os anos 1960. Talvez haja, hoje, 1/100 dos jornais de outrora (o que deixa a embalagem dos pescados mais custosa). Mas também feneceu o volume de peixarias, o de espécies marinhas locais, a oferta de escolhas sensatas, o montante de informações coerentes. Com sorte, vez ou outra, ainda vemos alguém embrulhando com a informação consumida a escolha do dia, com a exata noção do que será servido à mesa em sequência.

"90% dos pescados nos Estados Unidos são importados. E já chegam processados, claro. Se se pudesse ver quão lindo é um cherne, como eu via quando criança", conjectura Simone. Segundo ela, há um ritmo de captura insustentável de peixes de topo da cadeia, ricos em mercúrio, pelo acúmulo do metal tão nocivo à saúde noutras etapas da cadeia, sendo vendidos sem peso na consciência.

 

Simone Jones, da Seafood Watch, ONG pertencente ao Aquário de Monterey Bay
Simone Jones, da Seafood Watch, ONG pertencente ao Aquário de Monterey Bay

 

O cação que se come na Páscoa, ou noutra época, em forma de inocente moqueca, "porque tem pouco espinho", nada mais é que tubarão - atualmente, segundo dados de 2017 publicados no periódico científico Marine Policy ("Política Marinha", em tradução livre) e chegou às 45 mil toneladas anuais que os brasileiros levam às suas mesas. Produzimos 22 mil delas exclusivamente para o consumo interno e importamos outras 23 mil toneladas. Sim. Somos o maior mercado consumidor do astro de Spilberg e não devemos levar o Oscar por isso. Você está de boca aberta agora porque não sabia disso?

Pois é. Simone, ao lado da jornalista Paulina Chamorro (Rádio Vozes/ Portal Ecoera) e de Céline Cousteau (ativista social e ambiental/ membro do Conselho de Oceanos do Fórum Econômico Mundial e, sim, neta de neta do oceanógrafo francês Jacques Cousteau), abençoadas por Yemanjá, trouxeram a discussão sobre o caminho das águas e a solução que o desincentivo à pesca de arraste (em paralelo à educação ambiental dos pescadores de todos os portes) pode trazer à alimentação do futuro - a despeito das trágicas previsões acerca da finitude das populações marinhas.
 

Simone Jones, ao lado da jornalista ambiental Paulina Chamorro e da ativista Céline Cousteau
Simone Jones, ao lado da jornalista ambiental Paulina Chamorro e da ativista Céline Cousteau, no Fru.To


"Devemos agradecer a nossa primeira respiração do dia às plantas e a segunda ao mar. Ser gratos pelo ar que respiramos é um passo importante à tomada de decisões. E qual o custo da pesca de arraste para o futuro do mundo? Porque o pescador tem encomendas e a rede que ele lança não faz distinção entre o camarão que ele quer e as tartarugas que vem junto e são jogadas fora. É preciso educar para mudar o mundo", suporta Céline. 

E, aí, falamos em rastreabilidade, termo que já vem se desgastando tanto quanto sustentabilidade pelo uso indevido. Um chef como Eudes Assis, na beira da praia, em São Sebastião, sabe exatamente em que condições conseguiu o azul-marinho do dia, que servirá ao banquete de um paulistano como Alex Atala, numa visita trivial. Contudo, a sorte de fitar homens ao mar é contada nos dedos: são poucos os clientes e cozinheiros que sabem de qeue cadeia produtiva estão falando na boca. Você é sashimi lover? De onde vem seu atum azul? E o salmão vermelhinho postado sobre a pedra, encostado nos hashis?

 

 

8-PARA COMBATER A FOME E O DESPERDÍCIO

 

A fome não é novidade, mas é "news". Estava acomodada, surfando em maré pós-prandial ao menos nos balancetes mundiais, até 2016. No Brasil, sobretudo. 777 milhões de pessoas no mundo não tinham o que comer em 2015. Quase 1/7. Em 2016, a fome afetou 815 milhões de pessoas ou 11% da população global. Basicamente 1/7. 2 bilhões sofriam com a má nutrição, boa parte delas na África. Basicamente 2/7. 2,5% da população brasileira era afetada pela fome em 2015, contra 10,7% em 2002. 

Esses números, da ONU, são retratos de circunstâncias. A má distribuição de renda contribui sempre ao rugir de estômago e, em 2017 acordamos putos. 82% da riqueza ficou concentrada nas mãos dos 1% mais ricos, enquanto a metade mais pobre - o equivalente a 3,7 bilhões de pessoas - ficou com nada, segundo dados da ONG britânica Oxfam apresentados em Davos, há pouco

As alterações climáticas também cessam ou minam a produção de alimentos sazonalmente. Segundo pesquisadores da Universidade de Oxford, em uma avaliação sobre 155 países, em estudo publicado em 2016 na revista médica The Lancet, o impacto das mudanças climáticas na produção de alimentos em todo o mundo tem o potencial de levar à morte extra de 529 mil adultos em 2050. Não é balela.

Jason Clay, que comanda todo o trabalho da WWF Estados Unidos referente à agricultura, aquicultura, negócios e indústria, finanças, pesca e florestas, destacou que a maior das ameaças ao futuro não é a expansão urbana, mas agrícola. Carecemos de um litro de água para produzir 1 caloria. "O maior desafio será suprir a nova demanda por proteína animal, pois novos territórios serão ocupados por populações exigentes em dieta", alerta. 

 

Jason Clay, que comanda todo o trabalho da WWF Estados Unidos referente à agricultura:
Jason Clay, que comanda todo o trabalho da WWF Estados Unidos referente à agricultura: "O maior desafio será suprir a nova demanda por proteína animal, pois novos territórios serão ocupados por populações exigentes em dieta"


O sorgo, conta ele, já está substituindo o milho nos Estados Unidos (usado para o abastecimento da alimentação animal) e ocupando as regiões mais ao Norte e próximas ao Canadá, por causa do clima. As frutas, que eram massiçamente produzidas na Califórnia, de clima quente e seco, demandariam cerca de US$ 1 milhão de investimento por acre para serem produzidas em locais de clima mais ameno, como na Costa Leste. Já a canabis vem ganhando territórios na Califórnia, por sua vez. Mudam as demandas, muda o mundo.

Ainda que tenhamos superfotossínteses, agricultura vertical, proteínas sintéticas super cool e super vacas leiteiras (o empresário estadunidense Bill Gates investiu mais de US$ 40 milhões de dólares na ONG GALVmed, que conduz pesquisas genéticas), geneticistas porretas e menos monoculturas... Ainda que menos de 70% do território mundial (nível de agora) seja usado para alimentar a galera.

E que galera. A população mundial atingirá 9,1 bilhões em 2050 e, por isso, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) prevê que o mundo precisará produzir mais 70% de alimento que hoje. Agronegócio? Brasil como solução à fome mundial? Vento em popa? Agro é pop? E o pop não poupa... Ninguém. 

Isadora Ferreira, do Centro de Excelência contra a Fome, do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, destacou o compromisso pela cooperação entre países do Sul na área de segurança alimentar e nutricional, com foco em alimentação escolar. Noutras palavras, a ONU sabe que alimentar crianças de forma adequada nutricional e culturalmente (com respeito às tradições e à biodiversidade) é sagrar a elas a possibilidade de progredir intelectualmente. Quando a gente come, fica mais inteligente e pronto para mudar o mundo.


"Nosso trabalho é fazer com que os países em desenvolvimento promovam ações para acabar com a fome no mundo. E, para isso, as políticas públicas são indispiensáveis. A alimentação escolar traz múltiplos benefícios para as crianças, para os agricultores familiares, para as economias locais, gera emprego para as mulheres (merendeiras), incentiva as crianças a manterem as crianças matriculadas e frequentando as escolas, inclusive meninas que vivem em regiões em que normalmente seriam privadas da educação", enumera os benefícios do programa.

 

Isadora Ferreira, do Centro de Excelência contra a Fome, do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas
Isadora Ferreira, do Centro de Excelência contra a Fome, do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas

 

9-EDUCAMOS O GOSTO DOS PEQUENOS


Rose, Isadora, Simone e outros palestrantes deixaram bem claro o óbvio:
é preciso educar o gosto dos pequenos. Petrini recita isso como mantra desde 1989. E Bela Gil, fez coro com ele. Usando hashtags como pontos de marcação de fala e espécie de manifesto pessoal, a apresentadora e especialista em cozinha natural destacou o contrasenso que há, inclusive dentro das escolas, quando uma criança, como Flor, sua filha, chega ocm uma marmitinha saudável. "O bulying é imenso em relação á alimentação saudável", destacou ela, à frente do projeto Bela Infância, que ensina crianças de escolas públicas e particulares a se alimentarem melhor e a combaterem a obesidade infantil.

 
"Vejo como é difícil mudar hábitos alimentares não só das crianças, mas dos pais. Uma vez que as crianças aprendem muito mais por observação do que os pais consomem. Junto com o Instituto ATÁ, e com o chef Alex Atala, temos um projeto para inserir a culinária no currículo escolar", situa.
 
 
Bela Gil, no Seminário Fru.To



Janaína Rueda não estava por lá. Mas seria impossível deixar de lembrar do trabalho da cozinheira do Bar da Dona Onça (SP) à frente da mudança da lógica da merenda escolar na cidade de São Paulo. Ela vem ensinando técnicas culinárias às mais de 2 mil merendeiras do Estado e promovendo uma revisão dos gostos dos pequenos pela mera introdução da comida de verdade ao cotidiano.

Na Fazenda da Toca (Itirapina/SP), que visitamos em companhia de alguns palestrantes, no domingo seguinte ao desfecho do Fru.To, tambem há um projeto bacana de educação infantil do paladar - a culinária está no Centro do projeto e, segundo a geógrafa Olívia Gomes, que nos acompanhou na visita, só falta alinhar intensões para que mais cozinheiros se envolvam no projeto, em vigor desde 2009.

 

10-NA BATALHA PELAS BOAS NOTÍCIAS


Diálogos Comestíveis arrumou mais #MotivosParaDialogar com Alex Atala e com boa parte dos palestrantes a fim de saber qual deve ser o papel da imprensa - híbrida e em fase transacional de "produção de conteúdo", nem sempre, relevante - para tornar a gastronomia (e o mundo) mais sustentável. Em breve a gente sobe os vídeos e já pede desculpas, de antemão, por não contar TUDO o que foi dito em 31 palestras e 72 horas. A gente chega lá! Mas garanto que fomos alé da borda. 

Ora, holísticos também somos e não é possível que escrevamos apenas sobre o abre e fecha de casas, ingredientes ou dietas ou receitas da moda e basta. Tampouco que prestemos ao vexatório papel de meros copidesques de releases (papagaios de piratas, quase literalmente). Em época de fake news, estamos rasos de tanto too much. Já falamos sobre isso em post.

 

Nosso recado no mural do Fru.To
Nosso recado no mural do Fru.To



Desde setembro de 2015, quando
Diálogos Comestíveis nasceu, apostamos ter muitos #MotivosParaDialogar sobre sustentabilidade. O que a gente quer não é mesmo só comida. É cultura. A gente tem fome de conteúdo, de mudança. E lança aqui o desafio para 2018: que pauta gastronômica você quer ver publicada? Que reportagem gostaria de ver circulando por aí? 

Cada conteúdo tem seu lugar, mas pode ser transmídia e multimídia, né? Sugira, por favor. É de curiosidade que se vive. O Fru.to foi o estopim de um movimento que já havíamos abraçado. Serviu energético a nós e a muita gente. E só podemos dizer que a novidade há de pintar.

Ajude-nos a ter sempre #MotivosParaDialogar. Contar histórias de valor é nosso compromisso. Em tempo: nossa linha editorial é independente e não temos um centavo de patrocínio. Ainda! Se quiser e puder apostar em nosso projeto, por favor, escreva para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. smiley  O jornalismo merece. A gastronomia também. Os atores da vida real agradecem.

 

 

 

 

 

 

 

 
 

MAIS CONTEÚDO, POR FAVOR!